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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

053. O MILHÃO (1931)


Tal como fizera um ano antes com Sob os Tetos de Paris, René Clair soube tirar proveito das inovações técnicas aportadas pelo advento do som no cinema e lançou, em 1931, O Milhão, comédia musical nitidamente influenciada pelo que Rouben Mamoulian e Ernst Lubitsch estavam fazendo nos Estados Unidos e da qual seriam pressentidas algumas idéias empregadas depois pelos irmãos Marx e por demais grandes nomes do gênero. Desta vez, Clair estava interessado em produzir algo mais leve, engraçado e comercial. Pode-se dizer que ele foi bem-sucedido: O Milhão se tornou grande sucesso e logo receberia elogios rasgados dos críticos.

A trama se desenrola em um único dia: um enorme flashback nos faz conhecer o artista plástico Michel, jovem afogado em dívidas que, num golpe de sorte, descobre ser o ganhador da loteria. No entanto, o bilhete premiado encontra-se no bolso de um casaco que sua namorada acaba de vender a um trambiqueiro; este repassa o vestuário a um cantor de ópera que irá vestir o paletó como fantasia em sua apresentação de Il Trovatore, naquela mesma noite, em Paris. Clair acompanha “Michel &cia.” na corrida amalucada atrás da peça de roupa em seqüências plenas de sacadas inteligentes e humor de sobra, como o contra-plano do casal escondido no teatro, em que os diálogos são inaudíveis e substituídos pelas canções românticas encenadas a poucos metros, ou a cena da disputa pelo casaco nas coxias, rodada como um jogo de futebol americano, o barulho da torcida ao fundo.

Há uma sensação de envelhecimento na obra, sem dúvida. Em todo caso, O Milhão continua tendo seu charme e fluidez intactos. A busca desenfreada do elenco pelo bilhete de loteria faz lembrar de leve o arrastado Deu a Louca no Mundo, de Stanley Kramer, mas Clair, embora artista bem mais amarrado à concepção visual de seus projetos, opta pela simplicidade. A câmera passeia com delicadeza pelos cenários, todos lindíssimos, a começar pela imagem inicial de prédios à noite — com tendência ao expressionismo alemão, com o uso e abuso de linhas tortas — passando pelo palco do teatro lírico. É com esse mesmo apuro panorâmico que o cineasta construiria, naquele mesmo ano, seu trabalho mais célebre, A Nós a Liberdade, que finalmente pude conferir alguns dias atrás. Este teria influência direta no Tempos Modernos, de Chaplin. Desse modo percebe-se a engenhosidade de um homem que estava sempre à frente de sua época.

http://www.imdb.com/title/tt0022150/


052. A NÓS A LIBERDADE (1931)


Direção: René Clair
Roteiro: René Clair
Fotografia: Georges Périnal
Música: Georges Auric
Montagem: René Le Hénaff, René Clair
Direção de Arte: Lazare Meerson
Elenco: Henri Marchand, Raymond Cordy, Rolla France, Paul Olivier, Jacques Shelly, Germaine Aussey, André Michaud, Léon Lorin

Fugitivo da prisão torna-se rico industrial; o companheiro de fuga, que havia sido recapturado, ao terminar de cumprir a pena vai trabalhar com ele e o ajuda a livrar-se da polícia; os dois acabam entregando a fábrica aos operários e tornam-se felizes vagabundos. Sem dúvida, essa sátira à produção em massa influenciou Chaplin para realizar seu Tempos Modernos(36). Um belo poema em louvor à liberdade.

 

A máquina contra os ideais humanos
Em A Nós a Liberdade, René Clair satiriza a indústria que reduz o homem ao nível da máquina e isso foi uma fonte inequívoca de influência para o filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, feito cinco anos depois. Dois companheiros de fuga de prisão são os protagonistas desta bela e inteligente comédia musical. Um, interpretado pelo simpático Raymond Cordy, que sobe rápida e habilmente no intrincado mundo industrial. O outro, Henri Marchand, perambula inocentemente pela narrativa, querendo aceitar o inesperado. Aproveitando o talento do brilhante diretor de arte Lazare Meerson, Clair usa o vasto complexo industrial em sua totalidade, transformando-o num palácio maravilhoso, cheio de salas para caçadas e brincadeiras.

 
 

A música alegre e despreocupada de Georges Auric sublinha o filme, e a câmara de Georges Perinal explora as superfícies brancas e grandes da super-fábrica e o brilho das suas paredes. Mas a excelente técnica empregada no filme é apenas uma moldura para a crítica à pomposidade e a processos técnicos desumanos. Com este filme, o diretor defende o estabelecimento de valores essenciais e faz uma apreciação sem concessões das incoerências do ser humano. O mundo é retratado pelos olhos de dois personagens com visões diametralmente opostas. Talvez a idéia de utopia apresentada por Clair em A Nós a Liberdade seja primitiva, inocente e impraticável, mas continua sendo um ideal muito caro a todas as pessoas sensíveis. Fonte - Guia Vídeo 1990 Nova Cultural.

Formato: RMVB 
Áudio: Francês 
Legendas: Português (embutidas) 
Duração: 1:23 
Tamanho: 295 MB (03 partes) 
Servidor: Rapidshare 

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